quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

uma tarde com Elis


Durante essa madrugada insone, em meio àqueles pensamentos confusos e persistentes, surgiu a ideia de visitar o endereço em que Elis Regina morou até a manhã da sua morte, em 19 de janeiro de 1982. O dia, assim como quase todos desse verão atípico, amanheceu nublado e assim permaneceu até a hora em que andei da Avenida Paulista até o edifício da Rua Melo Alves, nos Jardins. À medida em que me aproximava do número 668, sentia o tempo abrir e ficar cada vez mais quente, como naquela brincadeira que indica que o local marcado está perto.
O prédio de Elis hoje parece simples, perto de todas as imponentes construções neoclássicas que se ergueram na última década. Mas na Melo Alves de 82, parecia um lugar bem calmo, cercado praticamente só de casas numa rua tranquila. Ideal para se criar três filhos.
Não tenho como esconder que me decepcionei um pouco ao chegar ali. Não havia um único fã, uma única vela, uma flor. Pessoas iam e vinham alheias ao local e à data de hoje. Um agente da CET multava um carro estacionado em frente ao edifício. Um homem passeava seu cachorro. Uma senhora entrou na garagem de táxi. Será que as pessoas esqueceram mesmo daquela que é a maior cantora que o Brasil já ouviu? Será que ainda não avaliamos bem o impacto da perda dessa artista, como observou Pedro Alexandre Sanches? Não havia mesmo um Strawberry Fields nem nada que pudesse preservar a memória de Elis.
Então eis que um casal, em torno dos 50 anos, vem caminhando em direção ao prédio, pára exatamente em frente à portaria e começa a discutir, aos berros. O homem (que, por um momento, pensei que pudesse ser a Rita Lee disfarçada) se senta no canteiro da guarita do porteiro e se recusa a seguir adiante. Opa!, pensei, olha o sinal que eu estava esperando, a energia da Pimentinha. Pensei nas brigas que ela deve ter tido naquele mesmo lugar, tarde da noite. Pensei numa pessoa que estava se entorpecendo para fugir dos conflitos, da dor, da incerteza. Uma pessoa que se recusava a seguir adiante.
Acendi um cigarro e continuei observando o casal. A senhora também se sentou e conversou calmamente com o homem, que, resignado, finalmente levantou-se e surpreendeu-se com a placa que havia debaixo dos seus pés. Ao ler o nome de Elis Regina, perguntou ao porteiro se era ali que tinha vivido a estrela que morreu quando ele estava começando a viver. Mudou de feição imediatamente, tirou foto da placa e saiu com a esposa, feliz. Dei minha peregrinação por completa e saí, também, feliz por saber que Elis ainda está ali, e aqui, e lá, causando o mesmo turbilhão de emoções que sentia e passava passa pra nós em forma de canto.
Amor não tem que se acabar.

2 comentários:

Anônimo disse...

:(

juliana bueno disse...

Onde estao as imagens do texto? Obrigada

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